(Diário)
VOTO
OBRIGATÓRIO
É provável que para as próximas eleições
municipais, o Tribunal Superior Eleitoral, inlcua na votação
o plebiscito para os brasileirois decidirem sobre reeleição
de presidente, governadores, prefeitos, voto obrigatório
e adoção do financiamento público
de campanha.
Pelo menos é o que prevê o Substitutivo ao
Projeto de Decreto Legislativo, aprovado na semana passada
pela Comissão de Constituição e Justiça
da Câmara Federal.
O autor do Projeto é o senador Gerson Camata, do
PMDB do Espírito Santo. Sobre sua proposição
o senador capixaba disse que se o Congresso não
consegue decidir as propostas que dizem respeito a esses
temas, que a própria população se
pronuncie.
A data para a consulta será fixada pelo TSE, mas
será obrigatoriamente definida, no máximo,
um ano após a aprovação da matéria.
Outro tema, proposto é a redução
da maioridade penal que não obteve consenso entre
os parlamentares do senador Jefferson Péres (PDT-AM).
Vai ficar para a próxima legislatura.
Acho que o projeto que acaba com a obrigatoriedade do
voto seria uma boa. A maioria iria votar SIM, ou seja,
pela sua extinção. Essa de obrigar as pessoas
a fazerem, ás vezes, o que não que não
desejam, tem que acabar. Vivemos hoje uma outra realidade.
Já dizia um amigo meu: "obrigado é
pau de arrasto".
A proposta sobre reeleição para presidente,
governador e prefeito, o resultado seria imprevisível,
mas o financiamento público de campanha, asim como,
o da diminuição da maioridade penal passariam
tranqüilo.
Com relação ao voto obrigatório ou
facultativo, é importante registrar que nas principais
democracias representativas o voto é, sempre, facultativo.
Constata-se, de fato, uma correlação entre
o voto obrigatório e o autoritarismo político.
O voto facultativo é, sem dúvida, mais democrático
e aufere melhor a vontade do eleitor.
Corrobora, ainda, a tese do voto facultativo o fato de
que o exercício da cidadania é um direito
fundamental do cidadão na democracia representativa.
É quando o povo, regularmente, exerce o supremo
poder. O poder de escolher os seus representantes.
O exercício da cidadania tem levado à maturidade
política. Por outro lado, a obrigatoriedade do
voto, na prática, não tem ocorrido, visto
que após os pleitos eleitorais tem havido a apresentação
e aprovação de projetos anistiando os faltosos.
Temos convicção de que o voto deve ser encarado
como um direito e não como uma obrigação,
um dever, passível de punição, por
essa razão somos pela instituição
do voto facultativo, mantendo, todavia, o alistamento
eleitoral obrigatório para os maiores de dezoito
e menores de setenta anos.
Vivemos, na verdade, uma ficção: estamos
nos enganando, pensando que o voto tem que ser obrigatório.
Acho que a obrigação do cidadão é
ser eleitor - ter o título eleitoral é uma
obrigação, um documento; entretanto, o ato
de votar é um direito de cidadania que a pessoa
exerce, e no seu exercício, na sua participação
de cidadania, isso vai se ampliando.
Os países nos quais existe o voto obrigatório
são aqueles onde mais vezes as constituições
foram rasgadas e mais vezes entramos na escuridão
do arbítrio.
No Brasil, a cada eleição, há uma
abstenção muito elevada, pessoas que não
comparecem e não exercem o direito democrático
de poder escolher, de poder participar. Temos também
um número bastante elevado de votos em branco e
votos nulos.
Sempre fui adepto do voto facultativo. É oportuno
lembrar o plebiscito que consolidou o presidencialismo
no Brasil. Noventa e cinco por cento das pessoas que iam
para os locais de votação não tinham
clara idéia do que estavam votando. Quando um cidadão
não tem idéia do que está votando
ele prefere manter o conhecido, mesmo que ruim, a votar
no desconhecido.
O voto obrigatório é uma tendência
ao retrocesso, ao atraso, porque podemos obrigar um cidadão
a votar, mas não há quem o obrigue a se
deter, a estudar, a analisar, a avaliar um assunto complexo,
como é o sistema de governo, por exemplo. Certas
pessoas se interessam e outras não. Aliás,
é um direito institucional do cidadão não
se interessar por determinado assunto.
O voto facultativo tem outra qualidade: quando houver,
estados, municípios e o próprio país
poderão fazer com muito maior liberalidade, em
número muito maior, plebiscitos e referendos. Há
países, como a Suíça, por exemplo,
que fazem plebiscito para tudo - para criar um imposto
há plebiscito, para entrar ou não na União
Econômica Européia há plebiscito,
ou seja, há plebiscito para tudo na Suíça
-, mas o voto não é obrigatório.
Da mesma forma, a experiência vale nos Estados Unidos
e em outros países europeus. De modo que o voto
facultativo vai aperfeiçoar essa democracia participativa
popular e permitir que ela seja mais ampla, mais abrangente
do que é hoje.
Uma pesquisa elaborada em 1995, pelo instituto VOX POPULI,
comprovou que 67% dos consultados opinaram favoravelmente
à adoção do voto facultativo e, um
dado mais relevante, 60% dos entrevistados votariam mesmo
o voto sendo facultativo.
Vale
dizer, o que conta são os votos nos diversos candidatos
e legendas e não o número de eleitores inscritos
ou que compareceram.
O
voto é, pois, um direito do cidadão, é
a hora sublime do exercício da democracia, visto
que é o momento em que o poder é exercido
diretamente pelo povo.
Ao tornar-se obrigatório, deixa de ser um direito
e passa a ser uma imposição. Deixa de ser
a livre manifestação para transformar-se
em manifestação forçada, que caracteriza
a ausência de liberdade.
De outra parte seria hipocrisia afirmar que no modelo
atual - da obrigatoriedade do voto -, não ocorre,
em larga escala, a deplorável "negociação"
do voto.
Há
quem venda o seu voto porque, evidentemente, existe quem
o compre. Inclusive, quem premie a abstenção,
alugue o título e outras formas de negociação.
Analisando por este prisma, o que facilitaria mais a troca
do voto por pequenos favores, o fato de o eleitor ter
obrigatoriamente que comparecer às urnas, sob uma
pseudo-pena , ou, ao contrário, o fato de o eleitor
só comparecer à seção eleitoral
movido pela sua consciência?
Parece-nos que o voto obrigatório é indutor
dessa "negociação". O que o eleitor
que não tem consciência da importância
do seu voto provavelmente pensa é: se eu tenho
que comparecer, que eu tire algum proveito imediato! Corrobora
essa afirmação o que apontam as pesquisas,
segundo as quais, mais de 80% dos eleitores não
se lembram do nome do deputado federal em que votou no
último pleito.
Vale recordar nesta hora um argumento do então
senador José Fogaça, hoje prefeito de Porto
Alegre, utilizado no âmbito da Comissão quando
a época estudava a matéria e que foi extremamente
válido e no qual ainda não havíamos
pensado:
Sua excelência defendeu o voto facultativo como
o meio de aumentar a democracia direta, na medida em que
viabiliza a ampliação do processo de consulta
popular nas cidades.
Serão
esses exercícios periódicos, livres, facultativos,
que terão profundo conteúdo pedagógico
sobre o eleitorado brasileiro.
Sem dúvida, a responsabilidade dos Partidos aumentará
na medida em que deverão escolher candidatos identificados
com as aspirações da comunidade que pretende
representar. E mais, competirá aos partidos políticos
utilizar o tempo de televisão de que dispõem
para conscientizar os cidadãos da importância,
da inalienabilidade, da sua consciência e, por conseguinte,
do seu voto.
A partir do instante em que o cidadão entender
inteligentemente que o voto deve ser o exercício
de um direito e não um dever e procurar defender
os seus interesses, escolher os seus representantes, aí
sim, é bem provável que tenhamos até
uma inversão do quadro a que estamos assistindo
hoje, em que o nível de abstenção
é elevadíssimo e os votos em branco também
vêm acompanhando esse índice de forma assustadora.
(25.12.2006)