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Articulistas
/
Opinião
Francisco Basso Dias (de Brasília)*
O
CONTRA-PONTO
Recebo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), através
da sua assessoria de imprensa, um verdadeiro epítome
afirmando que vinho é alimento. O documento insere
a opinião do médico cardiologista Jairo Monson
de Souza Filho, de Garibaldi, um estudioso das relações
entre vinho e saúde e as condições da
bebida como alimento natural, que divulgo como contra-ponto
do comentário que fiz, indagando: Vinho é alimento
ou bebida alcoólica?
A
opinião do Dr. Jairo é respeitável. Todavia,
não me tira o direito de achar que o vinho, fruto do
relacionamento do grande Zeus com a virgem Sêmele, de
cujo relacionamento nasceu Bacco, repito, é bebida
que contém álcool, e não me entra na
cabeça que, sendo bebida alcoólica, pode ser
considerada alimento.
O
estudo do Dr. Jairo serviu de base para o projeto que foi
aprovado por unanimidade pela Assemléia Legislativa
do Rio Grande do Sul, servindo ao mesmo tempo de resposta
ao Simers – Sindicato Médico do RGS – que contestou
também a conceituação do vinho como alimento.
Confira
a argumentação de Monson de Souza: Médico
expert em vinho & saúde reforça: vinho é
alimento.
Coordenador
científico do Simpósio Internacional Vinho e
Saúde – Vinho como alimento natural, evento que, realizado
de 2 a 4 de junho de 2005, reuniu, em Bento Gonçalves,
as mais renomadas autoridades internacionais da atualidade
na pesquisa sobre vinho e saúde. Estudioso da relação
vinho & saúde há mais de dez anos, já
tendo, por conta disto, proferido palestras para mais de 15
mil pessoas, em universidades, hospitais e eventos médicos
em diversos Estados brasileiros e mesmo no exterior.
É
com este currículo que o médico Jairo Monson
de Souza Filho, cardiologista atuante no município
de Garibaldi (RS) e autor de dezenas de artigos sobre vinho
e saúde publicados na imprensa nacional, apresenta
suas reflexões sobre a posição do Sindicato
Médico do Rio Grande do Sul (Simers), datada de segunda-feira
da semana passada, dia 28 de agosto, contestando a conceituação
do vinho como alimento. A manifestação do Sindicato
– expedida por conta da apreciação e aprovação,
pela Assembléia Legislativa do Estado, do projeto de
lei 119/2005, pelo qual o vinho passa a ser definido, no RS,
como um alimento natural – é avaliada por Monson de
Souza com base em algumas premissas centrais: se é
verdade que o uso abusivo de álcool (substância
que o vinho, evidentemente, contém) é danoso,
também é verdade que o uso leve e moderado,
por quem não tenha contra-indicação ao
seu consumo, é benéfico para a saúde.
De outra parte, todos os estudos científicos na área
demonstram que o vinho causa mais benefícios e menos
danos à saúde do que as cervejas e os destilados.
Em relação ao próprio suco de uva, o
vinho é mais salutar. No texto abaixo, adaptado de
carta enviada pelo medico, a pedido, ao deputado estadual
Estilac Xavier (PT), autor do PL 119/2005, confira a argumentação
de Monson de Souza:
"Os
dados apresentados na manifestação do Simers
são verdadeiros em relação ao uso abusivo
de álcool. Só que existem mais dados tão
preocupantes quanto estes. Ou seja, é verdade que o
uso abusivo de álcool é danoso e preocupa muito
a mim, e acho que deve preocupar a todos, pessoas e instituições,
que são responsáveis (médicos, legisladores,
jornalistas, educadores etc.).
Mas
se é verdade que o uso abusivo de álcool é
danoso, também é verdade que o uso leve e moderado,
por quem não tenha contra-indicação ao
seu consumo, é benéfico para a saúde.
Hoje existem centenas de milhares de estudos científicos
a respeito. Alguns com o nível mais alto de evidência
científica. Farei referência apenas a alguns,
porque não caberia aqui referi-los todos. O estudo
INTERHEART, de setembro de 2004, é, possivelmente,
a publicação médica mais relevante daquele
ano. É um estudo caso-controle, publicado pela Revista
Lancet, que visa avaliar o impacto dos fatores de risco na
morbidade e mortalidade cardiocirculatória. Ele tem
dados de 29.972 pacientes de 52 países e evidenciou
que a ingesta regular de bebidas alcoólicas se constitui
em importante fator de proteção (25%) para doenças
isquêmicas do coração em todas faixas
etárias (de adultos), sexos, raças e regiões.
Uma metaanálise elaborada por Rimm avaliou 42 estudos
feitos em 67 centros e publicados entre os anos de 1965 e
1998, com o objetivo de avaliar o impacto do álcool
em diferentes marcadores de risco cardiovascular. Ele observou
que os pacientes que ingeriam até 30 g de álcool
por dia, por mais de um mês, tiveram uma diminuição
de risco cardiovascular de 24,7%. Dados semelhantes ao encontrado
no INTERHEART. O Estudo de Nice, que acompanha mais de 20.000
pacientes, há mais de 20 anos, e que continua em andamento,
mostrou que as pessoas que têm o hábito de beber
regular e moderadamente vinho têm 20% menos chance de
desenvolver câncer de qualquer tipo. E que para alguns
tipos específicos de câncer, como o de próstata
e ovário, a proteção chega a 50%. Estes
dados são de estudos que têm o mais alto nível
de evidência e importância epidemiológica.
Fico apenas com estes estudos, por abordarem as duas principais
causas de mortalidade do mundo: as doenças cardiocirculatórias
e os cânceres.
Mas
a questão não é essa: consumo abusivo
de álcool é danoso; consumo leve e moderado
por quem não tenha contra-indicação,
é benéfico. A questão é: vinho
é alimento? No vinho já se identificaram cerca
de mil componentes. Oitenta e cinco a noventa por cento do
vinho é água. Ele contém álcool
em quantidades apreciáveis; quase que exclusivamente
o etanol, mas, também, metanol, glicerol e outros em
quantidades menos expressivas. Ele tem pouco açúcar.
Nada em alguns secos e até 60g por litro nos mais suaves.
Não tem gorduras. Tem 1 a 2g por litro de proteínas,
muitas delas desintoxicadoras das células e, por conseqüência,
do organismo. Outras agem direto na digestão. Costumam
ter quantidades apreciáveis dos aminoácidos
essenciais (Lisina, Fenilalanina, Triptofânio e Ácido
Glutâmico). Esses aminoácidos são assim
chamados porque eles são essenciais ao nosso metabolismo
e o organismo não sabe produzi-los – por isso, temos
de ingeri-los. O vinho ainda tem vários eletrólitos
e oligoelementos, muitos na forma quelada, que é aquela
em que o organismo mais tira proveito. Tem ainda vitaminas,
sobretudo as do Complexo B. E tem também 2 a 8 g por
litro de Polifenóis. Estes são os maiores responsáveis
(mas não os únicos) pelos benefícios
do vinho para a saúde. Por essa composição
tão rica de micro e macronutrientes, o vinho é,
sim, um alimento. E essa não é só a minha
opinião pessoal; é também de vários
autores que citam o vinho como exemplo de alimento funcional.
Alguns deles são: NEUMANN et al., 2000; BLOCH &
THOMSON, 1995; Buttriss, 2000; Craig & Beck, 1999; LAMPE,
1999; Weisburger, 1999; WEISBURGER, 2000; etc.
Em
2002, a prestigiada Revista Time publicou uma reportagem na
qual relacionava os dez alimentos mais importantes para a
saúde. Entre eles, citava o vinho tinto.
Sociedades
científicas têm se posicionado publicamente a
respeito do consumo leve e moderado de bebidas alcoólicas.
Em junho desse ano, a American Heart Association publicou
o seu Diet and Lifestyle Recommendations Revision 2006, na
Revista Circulation. Nesse documento, eles dizem que um estilo
de vida saudável inclui, para os que assim desejarem,
até duas doses por dia de bebidas alcoólicas
para os homens e uma dose por dia para as mulheres.
Na
nota do Simers que me foi enviada há que se proceder
a algumas correções científicas. Vamos
a elas:
*
"Não é o vinho que produz a substância
que faz bem à saúde, mas a uva". O vinho
é o produto da fermentação da uva madura
e sadia. Muitos dos componentes do vinho não existem
na uva. O álcool é um exemplo. Ele e outros
compostos são obtidos da fermentação
dos açúcares da uva pelas leveduras. Nessa reação,
são produzidos álcool, gás carbônico
e calor. Os principais responsáveis pelos efeitos do
vinho na saúde são os polifenóis. Eles
provem quase que exclusivamente da uva. Uma pequena parte
pode vir da madeira, nos vinhos que passam por madeira. É
um erro pensar que comendo uva o organismo irá absorver
os polifenóis. Noventa a 95% deles estão nas
sementes e cascas das uvas e, em parte muito significativa,
não são hidrossolúveis e o organismo
não sabe retirá-los da fruta. Quem melhor faz
isso é o álcool, que também facilita
a absorção dos polifenóis pelo organismo;
*
"O álcool é o que chamamos de caloria vazia,
com zero de nutrientes, portanto no vinho, não pode
ser um alimento". O álcool de fato tem as calorias
chamadas "vazias". Mas o vinho não é
apenas álcool. No vinho há cerca de mil substâncias.
É também um erro pensar que só o que
é calórico nutre;
*
"Vinho não é feijão, arroz ou batata".
Não acho adequado comparar diferentes alimentos. Neste
caso especificamente, do ponto de vista nutricional, o vinho
é muito mais complexo;
*
"Os polifenóis, por exemplo, estão na casca
da uva". Só 30% dos polifenóis do vinho
e do suco de uva provém das cascas. A maior parte deles,
cerca de 65%, vem da semente da uva. Um percentual pequeno
também pode vir da madeira, se o suco ou o vinho passar
por contato com a madeira;
*
"O resveratrol, potente antioxidante natural que ajuda
a frear o envelhecimento celular e preventivo para doenças
cardiovasculares, está na uva. ‘Beber suco de uva faz
bem à saúde e não causa mortes no trânsito
nem mais de 60 doenças diferentes que matam, efeitos
associados ao álcool’". Só se consegue
extrair o resveratrol da uva com álcool ou técnicas
sofisticadas de vinificação. Todos os estudos
que comparam os efeitos para a saúde do suco de uva
com o vinho mostram que o suco tem a maioria dos efeitos do
vinho, mas não todos (como, por exemplo, no aumento
dos índices do colesterol HDL, o ‘bom colesterol’)
e sempre em menor intensidade. Isso pela falta do álcool.
As
bebidas alcoólicas são diferentes entre si.
Todos os estudos que avaliam o seu efeito sobre a saúde
humana mostram, invariavelmente, que o vinho causa mais benefícios
e menos danos do que as cervejas e destilados.
Se
no vinho está a verdade, em seu consumo moderado, regular,
junto das refeições e por quem não tenha
contra-indicação ao álcool está
um meio para se viver com saúde e, portanto, qualidade
– o que faz do vinho, sim, um alimento: dos mais completos
e salutares já engendrados pelo gênero humano".
Espero
desta forma ter estabelecido o contra-ponto para que você,
prezado leitor, forme seu próprio juízo.
(06.09.2006)
__________________________
*Jornalista
francisco.dias@camara.gov.br
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