Um leitor me escreve
contrariando argumentos que utilizei no meu comentário
sobre a polêmica questão do estudo das células-
tronco, em discussão no STF – Supremo Tribunal Federal
– por ora suspenso, em razão do pedido de vistas do ministro
Carlos Alberto Menezes Direito.
"Achei sua comparação
muito inoportuna. Um tanto quanto maldosa contra os católicos"
– taxou o missivista. "O caso é que consideramos
o embrião uma vida humana e vivemos em um mundo extremamente
materialista e consumista, do descartável. Um espermatozóide
não é uma pessoa, nem o óvulo. Mas o zigoto
é um ser humano sim, com todo o DNA, cromossomas, etc.
de um ser humano adulto. É uma questão de valorização
da vida. Eu creio na Igreja Católica e creio que a vida
humana é sagrada! Só foi um comentário".
Engana-se o leitor
quando afirma que minha "comparação foi inoportuna
e tanto quanto maldosa". Se todo mundo discute, talvez,
o tema mais relevante do presente século que representará
uma revolução na medicina trazendo cura a muitas
doenças, como coração, esclerose múltipla,
câncer e tantas outras, por que não posso opinar?
Onde estaria a maldade no comentário que fiz?
Para responder ao
missivista e a todos os que se interessam pelo tema, aconselho
a lerem o artigo da socióloga Lícia Peres, publicado
em Zero Hora, na quinta-feira passada (13.03). Foi, até
agora, o melhor artigo que li sobre o assunto. De uma clareza
espetacular. Para os que não tiveram oportunidade de
ler, com a devida licença da autora, vou reproduzí-lo.
"NOVOS
PECADOS, VELHAS PRÁTICAS"
Há poucos
dias, a Igreja Católica divulgou no Osservatore Romano,
publicação oficial do Vaticano, um novo elenco
de "pecados sociais", destacando, dentre outros, o
que chamou de manipulação genética. Ao
meu ver, este anúncio tem um foco principal, o de frear
o avanço científico que, ao descobrir o potencial,
o de frear o avanço científico que, ao descobrir
o potencial contido no uso de células-tronco para substituição
de tecidos e órgãos, leva um novo alento à
humanidade. É uma transformação sem precedentes.
No Brasil, a permissão
para que sejam utilizadas as células-tronco embrionárias
congeladas há pelo menos três anos, após
longa espera, encontra-se em exame no Supremo Tribunal Federal.
Trata-se de um tema de importância crucial cujo resultado,
se concedida a autorização, representará
uma revolução na medicina e conseqüente elevação
brasileira para um novo patamar no avanço científico
em termos mundiais. A presidente Ellen Greicie já adiantou
seu voto favorável e deixou claro que já postergaram
demais.
O obscurantismo,
as visões medievais, aquelas mesmas que condenaram Galileu
e que queimaram mulheres e livros abrem mais uma guerra contra
o progresso e tentam impedir a aprovação da lei.
Em relação aos que sofrem e poderão ser
beneficiados com o prosseguimento das pesquisas – sua única
esperança – não há compaixão.
E, de repente, elevaram
o embrião a condição jamais vista, muito
acima das vidas concretas. As igrejas passaram agora também,
sob orientação superior, a colocar nos altares
reprodução de fetos em resina e, segundo o noticiário,
exibem filmes assustadores. Apelação é
pouco. Nova Cruzada à vista".
Bem, agora chamo
a atenção do leitor para o que segue, ainda do
artigo da socióloga Lícia Peres:
"A cientista
Mayana Zatz, uma das mais brilhantes pesquisadoras brasileiras,
explica de forma acessível: "Quando embrião
humano está com quatro ou cinco dias depois da fertilização,
é um conjuntinho de cem células, tão pequenino
quanto o pontinho do i. A gente não enxerga essas células,
a não ser aumentando cem vezes ao microscópio.
Nessa fase, há uma capa externa de células, que
irão formar as membranas embrionárias da placenta,
e um bolinho de células internas. As células desse
bolinho interno são as que chamamos de pluripotentes,
porque são as que podem produzir todos os tecidos do
nosso organismo.
Nessa fase, não
se tem o feto. Existe simplesmente um bolinho de células
que, de tão pequenas, você precisa aumentar muito
ao microscópio para conseguir ver alguma coisa. Há
algumas pessoas que chamam que, então, já existe
um fetinho com bracinho, perninha... Não. É simplesmente
um amontoado de células que, até 14 dias, não
tem nem resquício de sistema nervoso. Os embriões
que estão congelados em clínicas de fertilização
são aqueles que, ou já não têm bom
aspecto e não serviriam para implantação,
ou já estão congelados há tanto tempo,
que, mesmo se fossem implantados num útero, as chances
de se transformar em uma vida são mínimas, da
ordem de 2% a 3%. Chamar isso de vida é um otimismo gigantesco.
Eu creio que se pode falar, isto sim, num potencial muito pequeno
de vida. É por isso que estamos lutando para que, ao
em vez de jogar esses embriões no lixo, nos permitam
usá-los no laboratório, nos permitam aprender
como fazê-los se diferenciar nos tecidos que a gente precisa
para salvar vidas, para curar doenças e, no futuro, fazer
órgãos também.
O que limitam são
as crenças religiosas. Existem grupos religiosos – felizmente
são a maioria - que acham que, no momento da fertilização,
já se tem uma vida. É importante que se diga:
isso não é verdade, porque em 70% dos casos, mesmo
que ocorra a fertilização, não ocorre mais
nada. Essa fertilização pára aí.
Não ocorre a divisão do embrião e não
se teria nem um blastócito". Está aí
a possibilidade de esses embriões contribuírem
para uma vida nova, com qualidade, para um grande número
de pessoas necessitadas. Uma nobre função para
o que seria descartado.
Nas comemorações
do Dia Internacional da Mulher, foi divulgado de forma bem-humorada
e criativa o apelo: Tirem seus Rosários de nossos Ovários.
Sempre apreciadora
do bom-humor, creio, entretanto, ilusória a possibilidade
de dissuadir tais grupos religiosos com qualquer argumento.
Suas lideranças sabem muito bem que a matéria-prima
com que sempre operaram é a vida e a morte. Uma nova
concepção sobre estes temas poderá significar
um outro entendimento, uma visão diferente de suas pregações,
o que, certamente, não lhes convém. Combater o
atraso é nosso dever e nossa salvação".
Com isso dou por
encerrado o assunto.
(20.03.2008)