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Francisco Basso Dias (de Porto Alegre)*

 



(Semanal)

UM BOLO COM 100 VELINHAS PARA NIEMAYER

O arquiteto Oscar Niemeyer vai completar no próximo sábado, dia 15, um século de idade, completamente lúcido e ainda trabalhando. É uma verdadeira dádiva. Fui pesquisar sua biografia e como todo o bom arioca, Niemayer foi um boêmio ainda em tenra idade, como um carioca típico da época. Nascido no Rio de Janeiro recebeu o nome de seu avô Ribeiro de Almeida, ministro do Supremo Tribunal Federal.

.Concluiu o ensino secundário aos 21 anos, mesma idade com que casa com Annita Baldo, filha de imigrantes Italianos da província de Pádua, com quem teve somente uma filha, Anna Maria Niemeyer. Niemeyer tem cinco netos, treze bisnetos e quatro trinetos.

Após o casamento sente o peso da responsabilidade que havia assumido para si e decide trabalhar e continuar seus estudos. Começa a trabalhar na oficina tipográfica do pai e entra para a Escola Nacional de Belas Artes, de onde sai formado como engenheiro arquiteto em 1934. Na época passava por dificuldades financeiras, mas mesmo assim decidiu trabalhar sem remuneração no escritório de Lucio Costa e Carlos Leão. Ele se sentia insatisfeito com a arquitetura que via na rua e acreditava poder encontrar respostas a suas dúvidas de estudante com eles.

Em 1945, já um arquiteto com algum nome, filia-se ao PCB. Sempre foi um forte defensor de sua posição como stalinista. Durante alguns anos da ditadura militar do Brasil auto-exilou-se na França. Um ministro da Aeronáutica da época diria que "lugar de arquiteto comunista é em Moscou". Visitou a União Soviética, teve encontros com diversos líderes socialistas e foi amigo pessoal de alguns deles. Fidel Castro teria dito a respeito dele: "Niemeyer e eu somos os últimos comunistas deste planeta".

Em 1937, o escritório de Lucio Costa e Carlos Leão onde trabalhava é chamado pelo ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema (que anulara o concurso público ganho por Archimedes Memoria), para projetar o novo edifício do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro. Este projeto estava inserido no contexto político do Estado Novo, quando Getúlio Vargas, presidente do Brasil, usava a arquitetura e o urbanismo como ferramentas para ilustrar os novos rumos da nação em uma fase intermediária, tentando se transformar de potência agrícola exportadora de café em um país industrializado.

Lucio dividiu a autoria do projeto com outros arquitetos: Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcellos, Jorge Moreira, Carlos Leão e também um dos grandes expoentes mundiais do Movimento Moderno, o arquiteto franco-suíço Le Corbusier. O projeto segue os 5-pontos corbusianos, já realizados no Pavilhão Suiço, um prédio de apartamentos em Paris projetado por Le Corbusier em 1930. O edifício, terminado em 1943, eleva-se da rua apoiando-se em pilotis: sistema de pilares de concreto que mantem o prédio "suspenso", permitindo o trânsito livre de pedestres por debaixo do mesmo (um espaço público de passagem). O prédio uniu os maiores nomes do modernismo brasileiro, com azulejos de Portinari, esculturas de Alfredo Ceschiatti e jardins de Roberto Burle Marx.

Em 1939, Niemeyer viaja com Lucio Costa para projetar o Pavilhão Brasileiro na Feira Mundial de Nova Iorque. Associam-se ao escritório de Paul Lester Wiener, responsável pelo detalhamento dos interiores e stands de exposição. No mesmo ano apresenta o Edifício Gustavo Capanema. Em uma época onde a Europa e os Estados Unidos estavam concentrando suas potências industriais na Segunda Guerra Mundial, o Brasil estava investindo em arquitetura, o que lhe colocou na vanguarda da Arquitetura Modernista internacional, onde ainda permaneceu por várias décadas, graças em boa parte ao talento de Oscar Niemeyer.

Em 1940, Niemeyer conheceu Juscelino Kubitschek. Este era na época o prefeito de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, e tinha interesse em desenvolver uma área ao norte da cidade, chamada Pampulha. Chamou Niemeyer para projetar uma série de prédios que seriam conhecidos como conjunto da Pampulha. Este seria o primeiro trabalho individual de Niemeyer, com 33 anos de idade.

Prontos em 1943, os prédios renderam muitas críticas e admiração. Conseguiu sua primeira projeção internacional e muitas polêmicas locais. A Igreja católica negou-se a benzer a Igreja de São Francisco de Assis (Belo Horizonte), em parte por sua forma não ortodoxa, em parte pelo mural moderno pintado por Portinari. O mural possuía traços abstratos e reconhecia-se um cachorro, representando um lobo junto à São Francisco de Assis.

No conjunto da Pampulha Niemeyer começa um estilo que irá marcar o seu trabalho quase todo: utiliza-se das propriedades estruturais do concreto armado para dar formas sinuosas aos prédios. Quando Niemeyer desenha um prédio ele o faz com o mínimo de traços possíveis. Ele porém nega que seus prédios tenham uma estética que ofusca o utilitarismo: sempre escreveu enormes justificativas de projetos, onde descreve a função de cada curva do edifício. Ele costuma dizer que se não pode justificar uma idéia em um parágrafo, desiste dela.

No início dos anos 40, Niemeyer foi contratado pelo industrial e intelectual Francisco Inácio Peixoto para elaborar dois projetos em Cataguases: uma casa e um colégio. O projeto arquitetônico da residência de Chico Peixoto foi entregue em 1940. Em 1944, Niemeyer concluiu o projeto do Colégio Cataguases, cujas obras terminariam em 1947. Os projetos contaram com jardins de Burle Marx. Como ornamentos para o prédio do colégio, o arquiteto sugeriu a instação de um painel em mosaicos de Paulo Werneck e de um mural de Cândido Portinari.

Em 1947, seu reconhecimento mundial é atestado: Niemeyer viaja para os Estados Unidos para compor uma equipe de arquitetos renomados que farão o projeto da sede das Nações Unidas em Nova Iorque. No ano anterior havia recebido um convite para lecionar na Universidade de Yale, porém teve seu visto negado devido à sua posição política. Em 1950, o primeiro livro sobre seu trabalho (The Work of Oscar Niemeyer) é publicado nos EUA, por Stamo Papadaki.

No Brasil, projeta em São Paulo o Conjunto do Ibirapuera (um parque com pavilhões de exposições em homenagem ao aniversário de 400 anos da cidade) e o COPAN, em 1951 e no ano seguinte constrói sua própria casa no Rio de Janeiro. Esta, chamada a Casa das Canoas, nome da estrada em que se encontra, tornar-se-á muitos anos mais tarde parte da Fundação Oscar Niemeyer.

Juscelino Kubitschek, eleito presidente do Brasil em 1956, volta a entrar em contato com Niemeyer. Desta vez tem um projeto político mais ambicioso, e o chama para a direção da Novacap, empresa urbanizadora da nova capital, um projeto para mover a capital nacional para uma região despovoada do centro do país..

Niemeyer abre um concurso para o projeto urbanístico de Brasília, a nova capital e o vencedor é o projeto de seu antigo patrão e grande amigo, Lucio Costa. Niemeyer ficaria com os projetos dos prédios e Lucio Costa com o plano da cidade.

Em poucos meses, Niemeyer projeta dezenas de edifícios residenciais, comerciais e administrativos. Entre eles a residência do Presidente (Palácio da Alvorada), o Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado Federal), a Catedral de Brasília, os prédios dos ministérios, a sede do governo (Palácio do Planalto) além de prédios residencias e comerciais. A própria forma da cidade, em forma de avião, dá elementos que se repetem em todos os prédios, dando-lhes uma unidade formal. A catedral é especialmente bela, com diversos simbolismos modernos. A sua entrada se dá pelo subsolo, um corredor mal-iluminado que contrasta com um saguão com iluminação natural forte que deixa transparecer o céu único de Brasília.

Por trás da construção de Brasília, uma campanha monumental para construir uma cidade inteira a partir do nada, no centro árido do país, estava a intenção de Kubitschek de alavancar a industria do país, integrar suas áreas distantes, povoar regiões inóspitas e levar o progresso para onde havia somente vaqueiros (diversos historiadores comparam a construção de Brasília com a marcha do oeste norte-americana). Niemeyer e Lucio Costa aproveitaram para pôr em prática os conceitos modernistas de cidade: ruas sem trânsito (Niemeyer diria que é um desrespeito ao ser humano que ele tome mais de 20 minutos no transporte de uma região a outra), prédios erguidos por pilotis (apoiados em colunas e permitindo o espaço em baixo livre), integração com a natureza. Uma ideologia socialista também se ensaiou: em Brasília todos os apartamentos deveriam ser do governo que os cedia para seus funcionários, não havia regiões mais nobres, ministros e operários dividiriam o mesmo prédio. Brasília deveria ser uma cidade contida em si, não se expandir além dos projetos originais, previa-se que assim que ficasse cheia, outras em moldes parecidos seriam construídas em diversas regiões.

Brasília com a catedral em destaque

Brasília é projetada, construída e inaugurada no intervalo de tempo de um mandato presidencial, 4 anos. Após sua construção, Niemeyer é nomeado coordenador da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Brasília. Em 1963 é nomeado membro honorário do Instituto Americano de Arquitetos dos Estados Unidos, no mesmo ano em que ganha um prêmio soviético de paz, o Prêmio Lênin da Paz.

Em 1964 viaja para Israel a trabalho e volta para um Brasil completamente diferente. Em março o presidente João Goulart, (Jango), que assumira após o presidente eleito Jânio Quadros renunciar, havia sido deposto por um golpe dos militares. Os militares assumem o controle do país que se torna uma ditadura.

O projeto urbano de Lucio Costa utiliza alguns preceitos do urbanismo modernista principalmente a hierarquía viária preconizada por Le Corbusier em Sur les Quatre Routes e a disposição dos prédios em blocos afastados, dispostos sobre grandes áreas verdes, de seus projetos da década de 20. O plano também é bastante semelhante aos estudos de Hilberseimer. A escala monumental e alguns elementos compositivos utilizados no projeto de Le Corbusier para Chandigarh também podem ser identificados na capital brasileira.

A construção de Brasília suscitou grandes discussões internacionais desde sua construção. Mesmo antes do projeto, os preceitos do urbanismo modernista já estavam sendo criticados por sua grande dependencia no automóvel (em detrimento do pedestre), sua monumentalidade, e sua falta de uma escala próxima do homem. Hoje, apenas uma pequena parte da população total vive na área planejada. O crescimento da cidade não foi previsto e a instalação da nova população se deu de forma espontânea nas cidades satélítes.

Foi inaugurado no dia 15 de dezembro de 2006 o Complexo Cultural da República João Herculino, o maior centro destinado à cultura no Brasil. O Complexo, de 91,8 mil metros quadrados teve um gasto de R$ 110 milhões do Governo do Distrito Federal, conta com o Museu Nacional Honestino Guimarães e a Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola

O comunismo de Niemeyer lhe custará caro nos anos de uma ditadura militar do Brasil, Módulo tem a sede destruída, seus projetos começam a ser misteriosamente recusados e clientes a desaparecer.

Em 1965, duzentos professores, entre eles Niemeyer, pedem demissão da Universidade de Brasília, em protesto contra a política universitária. No mesmo ano viaja para França, para uma exposição sobre sua obra no Museu do Louvre.

No ano seguinte, impedido de trabalhar no Brasil, muda-se para Paris. Começa aí uma nova fase de sua vida e obra. Abre um escritório nos Champs-Élysées, e tem clientes em diversos países, em especial na Argélia, onde desenha a Universidade de Constantine e, em 1970, a mesquita de Argel. Na França, cria a sede do Partido Comunista Francês, e na Itália a da Editora Mondadori.

Nos anos 80 se distende uma abertura política lenta e gradual. É neste contexto que Niemeyer volta ao seu país. Ele próprio define esta época como o início da última fase de sua vida. Nesta época Niemeyer fez o Memorial JK (1980), o prédio-sede da Rede Manchete de Televisão (1983), os CIEPs(centros integrados de educação pública)e a Sambódromos do Rio de Janeiro (1984) e de São Paulo (1991), o Panteão da Pátria de Brasília (1985) e o Memorial da América Latina (1987), em São Paulo, este último tem uma bela escultura representando uma mão ferida como um Cristo, de cuja chaga na palma sangram a América Latina. Em 1988, foi criada a Fundação Oscar Niemeyer com o objetivo de preservar o seu acervo.

Em 1996, já com 89 anos, criou o que muitos consideram sua obra prima, o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, MAC. Um museu em um lugar improvável, com uma forma bela e original, uma escultura que se projeta sobre a pedra, dando uma linda visão da Baía de Guanabara e do Rio de Janeiro. As piores críticas que se fazem do museu é que sua forma é tão bela que ofusca as obras de arte dentro delas.

Em 2003, Niemeyer foi escolhido para projetar um anexo provisório na Serpentine Gallery -uma galeria londrina que constroi a cada ano um pavilhão em seu jardim. Niemeyer permanece envolvido em diversos projetos, entre esculturas e reformas ou readaptações de antigas obras. As obras declaradas pelo patrimônio público pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ou Patrimônio da Humanidade pela Unesco (caso de Brasília), só podem ser alteradas pelo próprio arquiteto.

Foi inaugurado no dia 22 de Novembro de 2002 o complexo que abriga o Museu Oscar Niemeyer, na cidade de Curitiba, Paraná. Niemeyer, em novembro de 2006, fez algo inesperado: casou-se com sua secretária, Vera Lúcia Cabreira, de 60 anos.

Em 15 de dezembro de 2006, com quase 50 anos de atraso, foi inaugurado o Museu Nacional Honestino Guimarães e a Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola, que formam, juntas, o maior centro cultural do Brasil, denominado Complexo Cultural da República, na Esplanada dos Ministérios em Brasilia. A inauguração foi programada para coincidir com o aniversario 99 de Oscar Niemeyer.

Também foi convidado a elaborar o projeto arquitetônico do novo centro administrativo do governo de Minas Gerais. Este centro localiza-se entre a capital mineira e o aeroporto internacional Tancredo Neves (Confins). Mais um projeto ousado que - dentre outras edificações no local - prevê uma laje de quase 150 metros apoiada em apenas dois pilares.

Em abril de 2007, é inaugurado em Niterói o Teatro Popular Oscar Niemeyer, que recebeu da prefeitura o nome do arquiteto, embora se trate de pessoa viva. Como a Constituição do Brasil e a lei federal nº. 6.474/77 proíbam que se dê nome de pessoas ainda vivas a prédios ou outros bens públicos, o jurista Eduardo Banks propôs uma Ação Popular para anular a nomeação do teatro, processando o Município de Niterói e o próprio Oscar Niemeyer, como pessoa física beneficiária da nomeação. O processo tem o nº. 2007.002.015473-5 e pode ser consultado no sítio do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. O valor dado à causa foi o mesmo do dos custos de construção do teatro: R$ 14 milhões.

Fora do Brasil, em 2007, o arquitecto prepara-se para iniciar as obras do seu primeiro projecto em Espanha: um centro cultural com o seu nome, em Avilés, com inauguração prevista para antes de 2010. Este projecto foi oferecido à Fundação Príncipe das Astúrias como agradecimento pela condecoração que Niemeyer recebeu, em 1989 (Prémio Príncipe das Astúrias das Artes). Do projecto constará um edifício dedicado a albergar o Museu Internacional dos Prémios Príncipe das Astúrias, onde se prestará tributo a todos os galardoados.

Tinha também planificando um balneário para Potsdam, na Alemanha, com inauguração marcada para 2007, cujas obras foram canceladas antes do início da edificação devido às suas dimensões faraónicas.

Em 2007, ano de seu centenário, Oscar Niemeyer aceitou ser presidente de honra do Centro de Educação popular e Pesquisas Econômicas e Sociais CEPPES, centro de estudos fundado por Luís Carlos Prestes.

Mais recentemente, Niemeyer fora convidado para redesenhar o prédio do Detran, de sua autoria, em Sao Paulo, que abrigara o novo MAC da USP.

Niemeyer completará agora em neste sábado o centésimo aniversário e se mantém perfeitamente lúcido e ativo.

Niemeyer já se dispôs a projetar um estádio de futebol no Brasil para a Copa do Mundo em 2014, que será realizada no Brasil.

Parabéns ao nosso maior arquiteto e que ele possa estar entre nós ainda por muitos anos.

(15.12.2007)

__________________________
*Jornalista
chico.jor@hotmail.com

 

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